On Liberty

John Stuart Mill não nos prende pela primeira frase do seu livro, ainda que seja interessante o binómio que nos expõe logo de início: liberdade da vontade e liberdade civil ou social. O seu ensaio recai sobre esta última e à medida que se avança na leitura, a auto-crítica do leitor enquanto cidadão, parte de um todo social, é inevitável. Talvez não se tenha interessado pela primeira, uma vez que na prática esta é imediatamente oprimida pela segunda.

Já no final da década de 50 do século XIX, o autor traça vários pensamentos que ainda hoje são bastante pertinentes (arriscaria mesmo a dizer cada vez mais pertinentes), não sendo, de todo, matéria “do século passado”. Todo o raciocínio desta obra podia ser resumido na célebre frase: a liberdade do indivíduo termina onde começa a do outro. No entanto, todos os exemplos e argumentos que o autor apresenta, sempre sem qualquer tipo de discriminação, permite-nos chegar mais longe.

Um dos pontos fortes deste ensaio é a forma como está estruturado. O leitor, depois de “mergulhado” na temática, é levado até ao poder da “unidade mais una” da sociedade: o indivíduo. A obra está construída como uma pirâmide invertida: depois de introduzida, o autor começa pela generalidade da liberdade de pensamento e discussão, passa para a individualidade enquanto elemento de bem estar e antes de nos apresentar concretamente os exemplos e aplicações, pensa sobre os limites da autoridade da sociedade sobre o indivíduo.

Poder do Estado e da opinião pública, dois poderes instituídos. O autor promove a discussão como fonte de anulação do erro e de uma visão mais clara da verdade. Mas não será do interesse das partes da nossa sociedade que se mantenha parte do erro e parte obscura da verdade?

Stuart Mill refere também a necessidade de temperamentos fortes, sendo que os indivíduos são dotados de várias faculdades para além da imitação – “Os seres humanos não são como ovelhas: e nem sequer as ovelhas são exatamente iguais.” -. O autor dá, por várias vezes, o exemplo da religião (sempre sem discriminação e escolhendo exemplos das várias doutrinas) pelo o facto de ser predominantemente uma “escolha por imitação” dos antecedentes do indivíduo. Ou seja, não escolhemos, adaptamos.

Isto representa um entrave ao desenvolvimento da sociedade. No entanto,  talvez este aspecto já se tenha alterado até aos dias de hoje. Hoje, pelo contrário, vinga-se pela diferença. Pelo novo, diferente, original, contrastante, pelo arrojado e por vezes até pelo feérico.

“A natureza humana não é uma máquina para ser construída segundo um modelo, e para se pôr a fazer o trabalho que lhe é estabelecido, mas sim uma árvore que precisa de crescer e de se desenvolver em todos os aspectos, de acordo com a tendência das forças internas que fazem dela um ser vivo.” 

Resta que esta diferença se reflita no desenvolvimento da sociedade. Reflete-se certamente no desenvolvimento tecnológico, criativo, etc., no desenvolvimento da sociedade, enquanto organismo vivo, talvez se mantenha algumas reservas.

A autoridade é certamente benéfica, há muito que se foram os Bárbaros e se constroem civilizações. A liberdade que o autor defende é em prol da sociedade não oprimida, regenerativa, evolutiva e dinâmica. Provavelmente uma utopia da sociedade perfeita.


Tenhamos consciência de que não somos livres, somos apenas parte de um todo hipoteticamente livre. 

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